A ARTE DA APATIA EM PENSAR


Autor: CRÍTICA POLÍTICA BRASIL

Perdura tendência no Brasil, há algumas décadas, de emoldurar os ensinos fundamental, médio e superior, em formato ideológico que não permite aos alunos desbravar horizontes além dos ministrados por seus doutrinadores. A exceção de pensar alhures, de criticar posicionamentos mais extremistas, de se opor à doutrinação ideológica, logo é reprimida, posicionando o aprendiz em situação de vexame ou desacreditando qualquer opinião emitida, seja a mais superficial, pelo que se contrapôs ao manejo. 

Ao contrário do que escreveu Paulo Freire [1], em sua volumosa obra o qual denomino de Manuais de Guerrilha Pedagógica, o "proletariado" atual, transmudado na "elite branca" alardeada pelos progressistas, é a que pratica a opressão educacional, seja nas escolas municipais e estaduais, seja nas Universidades, privadas e tanto mais nas públicas. Ainda, àquilo que ele chamava de opressor e de doutrinação bancária é praticada por progressistas, que rezaram perfeitamente pela cartilha pedagógica daquele deseducador.

Em rápidas palavras, este é o atual cenário da educação formal, entendida como a que é praticada em estabelecimentos regulares de ensino, onde professores e alunos adentram por meio de concursos abertos ao público, ou seja, sob controle administrativo estatal, um pouco menos nos estabelecimentos privados, em sua totalidade, em estabelecimentos públicos. Assim, mais restrito (ou praticamente impossível) se torna a capacidade do aluno de se contrapor ao que ali lhe é ministrado. Resta claro que estes alunos, em doutrinação, dificilmente terão outra percepção da realidade histórica que não aquela incorporada pelos "ensinamentos" de seus tutores. Como assevera Andrew Lobaczewski, em sua primorosa obra Ponerologia [2], "nenhuma pessoa pode se desenvolver sem ser influenciada por outras pessoas e por suas personalidades" (LOBACZEWSKI, p. 36). Pessoas e personalidade maléfica, influências maléficas.

Entretanto, o sufocamento na liberdade de pensar não se restringe apenas aos estabelecimentos educacionais. Primeiro, é importante salientar, que tanto nesses ambientes como fora deles, muitos são os que nem se apercebem conscientemente que não estão raciocinando por si, apenas reproduzindo conteúdo direcionado. 

Restringindo a análise ao ambiente extra-educacional, pode-se dividir este rol de indivíduos em dois grupos: (1) os que, por iniciativa própria, buscam criticamente aprofundar o conhecimento e (2) os que, por ausência de iniciativa, mantém-se na superficialidade de conteúdo sobre grande parte do que lhe é permitido conhecer.

Para o grupo (1), embora sob forte doutrinação avassaladora, alguns poucos conseguem desgarrar-se das pesadas mãos do conhecimento desconstrutivo. Ao livrarem-se do manto da incredulidade além muros, estes, como que sobrevoando o antigo terreno infértil em que habitavam, percebem a imensidão de conteúdo inconsistente que lhes sufocava, proibindo-os de aventurar-se por outros ângulos. Neste mesmo terreno, jaz quantidade imensa de indivíduos, tanto do grupo (1) quanto do grupo (2).

Para os que se desgarram, vêem o alívio e a consciência de que, a partir deste momento, lhes é livre pensar, alçar voos em outras áreas do conhecimento, ou mesmo que nas mesmas áreas apreendidas por tantos anos, analisá-las sob outros aspectos.

Sobre o grupo (2), o fosso é mais profundo, escuro e escorregadio. A "morte" intelectual é perpetrada pelo próprio indivíduo, que nem busca, por meios próprios, salvar-se das profundezas do fosso, nem grita por auxílio dos que conseguiram dali sair e podem ajudá-lo a se elevar e distanciar da completa penumbra mental.

Estes, é comum afirmar-se, "possuem uma tendência a buscar refúgio na ignorância ou em doutrinas ingênuas" (LOBACZEWSKI, p. 24), ocasionadas por vários motivos, dentre eles: o descrédito em relação às mudanças possíveis na realidade ou a inércia em, criticamente, analisar determinado objeto sob arestas antes não percebidas. Assim, este indivíduo, alijado mentalmente para o fundo do poço, terá sua visão da realidade em "tendências permanentes e características a uma deformação ditada por [...] traços instintivos e emocionais" (LOBACZEWSKI, p. 37).

O instinto e a emoção aparecem, sem a real ciência de quem os sente e se emociona, fazendo estes indivíduos reproduzirem certezas e afirmações desprovidas de discernimento do que é mecanicamente reproduzido. 

Clareando o que foi dito, apresentamos como exemplo o seguinte caso hipotético: indivíduo (a) professa dogma de fé semelhante a indivíduo (b). Outro indivíduo (c) além de não professar dogma qualquer, combate fervorosamente o dogma que (a) e (b) professam, com base em mentiras, blasfêmias, falsidades etc. 

Postas as peças no tabuleiro, (a) voluntaria-se a praticar esforços a pôr em prática os preceitos do dogma que segue, que é o mesmo dogma de (b). Em determinado momento de sua vida, o indivíduo (a) comete um desvio de conduta sanável. Sob a falaciosa doutrinação aplicada por (c), (b) passa a julgar, condenar e clamar por punição ao indivíduo (a), mesmo sabendo que este pode sanar sua conduta e que (c), sendo (a) punido, restará vitorioso em sua missão, que é atacar o dogma de fé de (a) e (b), e não mais poderá continuar sua missão de fazer resguardar os princípios morais do dogma seguido por (b).

O indivíduo (b) comete estes desatinos pois sua "visão do mundo - cotidiana, habitual, psicológica, social e moral - é um produto do processo de desenvolvimento do homem dentro da sociedade" (LOBACZEWSKI, p. 36). Se a sociedade não o deixou pensar de forma correta ou se este é categorizado no grupo (2) acima, não é de se esperar de sua atitude algo diferente de: hostilizar fortemente o indivíduo (a).

Este cenário descrito ocorre diariamente em nossa sociedade. Os cidadãos, levados por um massa informativa que "desinforma", praticam ações em que não conseguem perceber o impacto de seu posicionamento para além do que é reproduzido, mesmo que desconstrua e desestabilize suas próprias convicções

Seguem o coro erudito da desinformação, embora não saibam o que cantam. Hostilizam os que pensam com eles. Esvaziam o discurso dos que falam por eles. Fortalecem, imaturamente, os atos dos que os contrapõem.

A apatia no pensar não os deixa pensar na gênese de sua apatia.

Brasil, 18 de novembro de 2015.


REFERÊNCIAS
[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 58 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2015.
[2] LOBACZEWSKI, Andrew. Ponerologia: Psicopatas no Poder. Campinas: Vide Editorial, 2014.