BRASIL: A NOVELA DE HORRORES


Autor: CRÍTICA POLÍTICA BRASIL

O brasileiro, atônito e sufocado, assiste desacreditado às recentes cenas escandalosas produzidas no Brasil, palco oficial de gravação do novo (será?) projeto apresentado em horário nobre: a Novela de Horrores. Para tristeza e abatimento de imensa parcela honesta e idônea desta nação, as cenas gravadas não representam os desejos e anseios populares, protagonizadas por quem deveria estar longe das telas, afastados dos bastidores, impedidos de sequer adentrar nos estúdios da emissora. Entretanto, o que se vivencia é o extremo oposto.
 
O enredo é desenvolvido para contemplar, como seus atores protagonistas, apenas os intérpretes que se adequam ao papel descrito no roteiro. Interpretar aquém ou para além do que escrito é assumir cristalina incapacidade de atuação, relegados com demissão compulsória e título de incapacidade plena para atuação nos atos seguintes. Nova atuação somente após curso de aperfeiçoamento e posterior complacência com as ideias por detrás dos textos a serem encenados.
 
Obviamente, os diálogos escritos para as cenas refletem exclusivamente o discurso dos adeptos ao desfecho da novela, mesmo que o desenlace derradeiro seja contrário aos desejos dos espectadores. O cidadão de bem, dissonante a todo o processo, é espectador de toda a encenação, embora não inerte. No entanto, não mais detém qualquer importância na história, relevado a mero coadjuvante. Embora imoral e forçadamente distanciada de todo o processo (des)construtivo da novela, a sociedade brasileira, sem formação cênica, é a maior patrocinadora do espetáculo, compelida a auxiliar financeiramente o alto custo do projeto. As receitas com propaganda são destinadas exclusivamente aos atores, diretores, autores e à instituição representativa da classe.
 
Nos bastidores, pululam remunerados asseclas de diretores e atores, de todas as vertentes artísticas, embora instruídas na mesma escola de arte e que nada produzam para o espetáculo. As encenações, burlescas e caricatas, desatam os aplausos, o escárnio e as gargalhadas da trupe e em seus círculos reduzidos de espectadores. Milhões de outros brasileiros ou não se dispõem a assistir os capítulos, desistindo de acompanhar tão grotesca novela, ou estão desautorizados de presenciar o desenrolar das cenas. Figurino, iluminação e cenários são todos ajustados para que o espetáculo não se desvie do roteiro traçado. As gravações são apagadas e repetidas, caso o take não agrade aos diretores, autores e atores da tragédia.
 
Ao fim e ao cabo dos capítulos principais, realizam-se cerimônias de premiações diversas para condecorar os melhores atores, que mais adequadamente memorizaram os textos do roteiro, os que melhor encenaram. Estes, com premiações diversificadas, motivam-se para gravações e regravações dos próximos capítulos. Os diretores são agraciados com prêmios mais robustos, que vão desde participações em outras novelas, cargos de diretores em outras emissoras ou a possibilidade de indicação de atores, coadjuvantes ou protagonistas, para os próximos episódios. Os autores, mentores de toda a representação, "colhem os frutos" do sucesso midiático novelesco, mesmo sendo um total insucesso de público.
 
Somando-se atores, diretores e autores, estes representam ínfima parcela social, embora detenham os meios para todo o projeto cênico. No entanto, há outros meios de encerrar as gravações, afastar atores, autores e diretores, mudar o roteiro, trocar os personagens, regravar todas as cenas, alterar o capítulo final.
 
O Brasil de hoje é palco de uma novela de horrores, de uma tragédia social sem dimensões.

Brasil, 18 de dezembro de 2015.