XV DE NOVEMBRO: O BARULHO DO SILÊNCIO


Autor: CRÍTICA POLÍTICA BRASIL

A data XV de novembro é de todo especial no calendário cívico brasileiro. Seria descabido, neste artigo, aprofundar-se às questões históricas ou sociais relativas à data em questão, ou seja, as motivações e causas para a segregação das nações envolvidas na proclamação, as consequências, dentre outras. Mas é imprescindível, neste momento, aprofundar-se em relevantes questões sociais recentes que demonstram e certificam o silêncio cívico que inunda nossa sociedade, principalmente naqueles que deveriam esbravejar, embora sem espada em punho.

Em uma primeira análise, não se deve acreditar que vigora na atualidade nacional uma dormência generalizada da sociedade brasileira, em confortável e espaçoso berço esplêndido. Obviamente, não! A recessão política, econômica e moral não permitem que o povo brasileiro durma tranquilamente seu sono diário.

Há, talvez, uma leve, passageira e histórica preguiça em levantar do “berço esplêndido” e fazer-se ouvir nas ruas, jornais, televisão, mídias sociais, blogs, isto é, proclamar, para a República, o que dela e de seus governantes o povo brasileiro espera. O dia de hoje, domingo brasileiro, meados de novembro, é dia propício para tal ato cívico. Entretanto, não foi o que se percebeu. Poucos se lembraram da data, pois não foi feriado nacional.

Alguns poucos, dispersos e heroicos atos foram realizados nas principais capitais do Brasil, dentre elas SP, e na capital federal, Brasília. A barca dos pleitos navegava nos temas: volta da intervenção militar, a favor do impedimento da presidência, contra a corrupção, contra o partido da situação, contra as pautas progressistas e outra mais. Bonecos gigantes, médios, pequenos, fantasiados de presidiário, bandeiras e camisas do Brasil, rostos pintados completavam o cenário e o figurino das manifestações. Como afirmado, nada mais cabível numa data tão representativa para nossa nação. Ao todo, os manifestantes somavam uns 20, 30 mil brasileiros, muitas famílias, que decidiram arrumar os travesseiros do berço, deixá-lo organizado e ir às ruas.

Do mesmo modo, em outras diversas cidades, emblemáticas pelo elevado número de participantes em recentes manifestações, como Belo Horizonte, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Salvador, nem sinal de qualquer aglomeração mais robusta que recebesse atenção suficiente da mídia para uma divulgação nacional. Ou houve um ato orquestrado de não divulgação ou não houve realmente o que divulgar. Quiçá houve reunião do primeiro escalão do Governo Federal, em QG, para acompanhamento das manifestações.

Esta apatia social demonstra, como já afirmamos, o silêncio estrondoso e sufocante de uma nação adormecida. Poderia este silêncio tornar-se ainda mais profundo, mais “ensurdecedor”, sepulcral? A resposta é sim.

Embora enublado pelo estridente, confuso e enlouquecedor barulho de carros de som, o silêncio cívico, em sua real finalidade, fez-se novamente presente em meio ao tumulto de vozes da 20a Edição da Parada do Orgulho LGBT, no Rio de Janeiro, ocorrida nesta mesma data da Proclamação da República. Número de participantes? Quinhentos mil. Isto mesmo: 10 ou mais vezes que todos os outros protestos juntos.

A pauta da Parada LGBT era específico e direta: combate à pauta conservadora (leia-se: Estatuto da Família e outros temas correlatos e contrários aos desejos do movimento LGBT). Há qualquer empecilho de o cidadão de bem participar e se “manifestar” no encontro LGBT? De forma alguma. Segundo os organizadores, estas reinvindicações também são cívicas, o que se é de concordar em uma democracia. Todos os brasileiros têm o direito de se manifestar pública e livremente, desde que não seja em anonimato, devendo responder por seus atos. Está na Constituição Federal de 1988, e agora na recente Lei do Direito de Resposta sancionada pela presidente. As manifestações são justas sejam pelo orgulho LGBT ou não.

O que aqui se retrata e se questiona é a capacidade de organização de um movimento social conseguir arregimentar meio milhão de pessoas para um evento e outro apenas vinte a trinta mil. Os cidadãos brasileiros não se identificam mais com seus semelhantes sejam estes de origem social, nível de educação, cor da pele, credo ou religião diversas, mas que enfrentam o mesmo dilema e percalços diários? Ou seja, a identificação para rebelar-se contra o status quo é mais profunda quando envolve a mera escolha sexual, por serem os problemas vivenciados mais inerentes, próximos e identificados a este grupo?

Os entraves sociais (desemprego, inflação elevada, crise na saúde, na educação, nos transportes) vivenciados por toda a população brasileira (incluindo os manifestantes da Parada LGBT) não deveriam ser suficientes para renovar o espírito de manifestação de maior número de cidadãos, mormente nas manifestações não comemorativas?

Permanece intacto o questionamento a você brasileiro, o que inclui o que os escreve: o que falta para que estes problemas sociais vivenciados serem o ponto de partida para se elevar o número de participantes nas próximas manifestações?

O silêncio cívico se fez presente, alardeou barulho, em qualquer parte do Brasil, neste XV de novembro.

Brasil, 15 de novembro de 2015.