A DERROTA DA TRANSIGÊNCIA


Autor: CRÍTICA POLÍTICA BRASIL

No próximo dia 17 de março consumam-se trinta dias da reportagem de capa da Revista Veja (ao lado), em sua edição 2465, que trata da “Revolução dos Costumes” da juventude brasileira. Este curto tempo decorrido pode ser o suficiente e até extremo para algumas situações sociais. No entanto, será ínfimo se comparado ao necessário para a desconstrução de um processo destrutivo das crianças e jovens brasileiros. Mas qual a origem dessa destruição psicossocial de nossa juventude? Aos desavisados, incluindo neste rol extensa parcela dessa mesma juventude modificada e modificável, apresentamos: a ideologia de gênero [2], tendo sido o gênero, como separação entre sexo (imaterial) e corpo (material), concebido na década de 60 [3] (BONNEWIJN, p. 7) e “evoluindo” em conjunto com diversas gerações humanas.

Segundo Scala (p. 57), “a origem desta ideologia está no terceiro movimento feminista, conhecido como ‘feminismo de gênero’”. Esta ideologia utiliza a “categoria de gênero como instrumento de análise e conceito histórico que permite uma função reguladora da identidade de mulheres e dos homens” (SCALA, p. 59). Por função reguladora, relativizada, entenda-se a não obrigatoriedade de identificação objetivo-biológica do ser humano como homem ou mulher. Para a Geração Z, zonza e entorpecida sob um lamaçal de conceitos abstratos, a apropriação utilitária de termos como “neutro”, “sexualidade fluida”, “diversidade” e “tolerância” aprofunda o buraco em que ela própria imerge.
Como cânone desta ideologia, “a diferenciação sexual biológica não é uma realidade, mas uma mera construção social” (SCALA, p. 63). Para isto, é necessário criar-se o estigma de sexualidade biologicamente definida, passando-se o padrão ao gênero neutro, fluido, diverso, indefinido. Dessa indefinição desconcertante, surgem exemplos trazidos pela reportagem, como o cabeçalho de uma prova de Biologia aplicada em um dos colégios mais tradicionais do Rio de Janeiro, o Pedro II, berço de estudos do maior memorialista brasileiro, Pedro Nava. Na prova, o espaço para preenchimento do aluno não vinha intitulado com os dizeres Aluno ou Aluna, mas Alunx. O uso do letra “x” ao final da palavra caracteriza a indefinição sexual de quem fará a prova. Para a Geração Z, este fato é mais do que natural, ante a ausência de delimitação natural do sexo. Mais recentemente, a letra “x” foi substituída pela letra “e”, tornando as palavras (amige, queride) mais amigáveis, segundo entendimento dos próprios jovens “descolados” pertencentes à destruída Geração Z. 

Tal qual já nos apresentava George Orwell, em seu monumental 1984 [4], a novilíngua “não era somente fornecer um meio de expressão compatível com a visão de mundo […] mas também inviabilizar todas as outras formas de pensamento” (ORWELL, p. 348). Assim, “como homens que agem como máquinas” (ORWELL, p. 378), os adeptos da ideologia de gênero classificam como retrógados os contrários e os que discordam do pensamento feminista de gênero. Para os ideólogos, o que lhes importa é “as pessoas permanecerem estáticas, como ‘massa informe’, sem que suas tenham nenhum significado” (SCALA, p. 43) caso se adaptem à nova realidade ideológica.

Ao mesmo tempo que se arregimenta a construção social de cada indivíduo, em busca de um “novo ser humano”, destrói-se a identidade básica dos nossos jovens. A partir deste ponto, os próprios jovens é que passam a se definir sexualmente, segundo entendimento subjetivo, embora só existam dois sexos biológicos. Conforme a reportagem, no Facebook há mais de 50 (cinquenta) diferentes tipos de definição da sexualidade. 

A confusão metodicamente conduzida pela ideologia feminista de gênero aniquila a Geração Z, pois “ser alguém genericamente é o mesmo que ser ninguém genérico-sexualmente” (SCALA, p. 9). Assim, estes jovens ao passo que não conseguem se identificar como ser humano, não identificam seu próximo. Neste ponto de extrema relativização e indefinição, o desrespeito generalizado, a violência e o ultraje serão apenas etapas sequenciais de uma “tolerância” irrestrita e permissiva às drogas, à prostituição, ao sexo desregrado, à promiscuidade, ao aborto.

Segundo a Revista Veja, “para esses jovens na faixa de 15 anos, crescidos no universo digital, nunca foi tão normal ser diferente“. O normal, para estes jovens, passa pela discussão sobre “sexualidade, bissexualidade e pansexualidade”, temas estritamente abstratos, quando os que tentam definir pansexualidade, por exemplo, não sabem nem mesmo quem o são. A indefinição é realidade atual entre nossos jovens, não só sobre suas sexualidade, mas sobre seus futuros enfatizando o afirmado por Orwell (p. 124), para quem o “embate da pessoa nunca será com um inimigo externo, mas sempre com seu próprio corpo”. Este embate sucessivo e interminável é o primeiro passo para um Admirável (nem tanto!) Mundo Novo [5], onde “as coisas se tornem profundamente instáveis” (HUXLEY, p. 287), desencadeando uma eterna busca desenfreada pela identificação subjetiva, subtraída por um punhado de ideólogos de gênero.

Para estes ideólogos, muitos adeptos da Teoria Queer (estranho, em inglês) surgida na década de 90, “as identidades socialmente prescritas são uma forma de disciplinamento social, de controle, de normalização“ (MISKOLCI, p. 18), daí a necessidade de uma “Revolução dos Costumes”, sempre nos moldes estratégicos da esquerda. Para estes ideólogos, o modelo binário (homem/mulher) acabou, já que “há muitas outras possibilidades de gênero e sexo além daquelas que foram apontadas no nascimento” [1] (p. 66). Aprofundando a balbúrdia, os próprios ideólogos colocam-se “contra o que chamam de ‘homossexualismo padronizante’, porque confinaria em uma única categoria, a dos homossexuais, pessoas com preferências sexuais diversas” [1] (p. 68). Nesse mistério todo, estranho mesmo é termos como natural uma “teoria”, refutável em seu nascedouro, que se autointitula como estranha.

A confusão feminista entre gênero e sexo já nos apresenta seus frutos, embora podres, propagados em rapidez estonteante através das mídias sociais. Segundo o semanário, a questão do sexo indefinido é tratada com leveza, normalidade entre os jovens brasileiros (p. 63), até mesmo ante seus pais, (des)educadores, familiares. No entanto, a contragosto da sociedade brasileira, esta ideologia está sendo implantada e disseminada em nossos lares, escolas, universidades, espaços vitais de formação do caráter e da intelectualidade de nossa juventude, agora corrompida. 

Se nada de substancial for realizado para combater a dispersão da ideologia de gênero, a Geração humana que sucederá a Geração Z será gestada em uma sociedade indefinida, disforme, desparametrizada. Serão filhos de pais descaracterizados, relativistas, propagadores de mais uma revolução social devastadora. Sem capacidade de se definir previamente, a Geração Z não poderá exigir qualquer definição de seus filhos, completando-se o círculo suicida do auto-desconhecimento. 

Em síntese, Scala (p. 9) afirma que “o que poucos percebem é que o aniquilamento da identidade sexual pelo reconhecimento de uma identidade artificialmente construída numa esfera transcorporal comporta o esfacelamento de toda e qualquer identidade, trancando-se-a hermeticamente na indefinível esfera de um subjetivismo inverificável”. Para o mesmo autor (p. 44), “a única forma de sair da ideologia é descobrir a falsidade da premissa que lhe serve de fundamento aparente”. O que se observa, é que são poucos os esforços para desmascarar a ideologia de gênero e seus idealistas.

O certo é que os tempos vindouros serão nebulosos, com uma sociedade completamente desestruturada, confusa, desvairada. A surreal pós-Geração Z amargurará a celeuma produzida por pequeno grupo de ideólogos de gênero, munido das mais nefastas doutrinas que tentam explicar a realidade, embora sempre de maneira ilógica e destoante da verdade.

Referências:
[2] SCALA, Jorge. Ideologia de Gênero. São Paulo: Katechesis, 2015.
[3] BONNEWIJN, Olivier. Gender, quem és tu? Campinas: Ecclesiae, 2015.
[4] ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
[5] HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. São Paulo: Globo, 2001.
[6] MISKOLCI, Richard. Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.

Brasil, 06 de março de 2016.

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