QUANTO PODE VALER UMA VIDA HUMANA?


Autor: CRÍTICA POLÍTICA BRASIL

A
pergunta que inaugura este artigo já em seu título talvez seja antiga, desgastada em seu uso, carcomida em sua retórica, de pouco sentido no ultramodernismo que nos afunda no obscuro precipício das incertezas. Este é o tempo em que o incoerente “não reaja” é o fim da ação a ser exigida, mas não é sinônimo de que o que se exige faz desta simples exigência a certeza de se permanecer em vida. Em tempos de relativismos galopantes, o que se percebe é que o valor humano, em todas as suas nuances, está sendo digerido lentamente. Trinchado em pedaços, cada parte que se solta enfraquece a batalha em perpetuar a relevância mais complexa do todo. Faz-se assim, por exemplo, com a identidade sexual, ao se relativizar este enorme fragmento, divorciando-o da unicidade que é o ente humano. 

Mas analisemos uma questão: se a vida humana, como um todo, está sendo forçosamente retratada de forma segregada, tomando-se cada parte do seu todo como desprezível, substituível, por que “cargas d’água” ainda se insiste em questionar a inteireza do valor da vida? Mesmo se sabendo que a engenharia social desenvolvida direciona todos os esforços para enfraquecer as partes e debilitar o todo, por que, reiteramos, ainda insistimos em reafirmar a importância do todo, em face das partes? Para facilitar a linha de raciocínio, condense todo este caminhar informativo (de todo, de parte) e o transporte para a defesa da vida.

A vida, em sua singeleza, é una, mesmo que em suas diversas formas. Inexiste meia vida, ratificando, mesmo em qualquer de suas formas. O que existe são durações mais curtas ou mais longas de uma vida, as quais se denominam de processo de construção, composição, desenvolvimento da vida. No caso humano, mais especificamente, o processo de desenvolvimento da vida começa no findar do ato de procriação de pares de sexos diferentes, complementares, com a consequente concepção e posterior nidação. Notem que a vida é tão singularmente una que só se origina de outras vidas, no eterno movimento da existência. Assim, a nova vida gerada herda das outras que lhe originaram a unicidade, passando a ser um novo ser em processo de desenvolvimento. É vida por inteiro, não meia vida.

Nessa perspectiva, a vida humana em formação, como garantidora de perpetuidade da própria raça humana, não pode ter sua humanidade confiscada por seus pares. Quantas milhões de vidas em formação, seja em úteros de mães pobres ou ricas, indistintamente, já foram desgraçadas à morte em abortos, clandestinos ou não? Sob qual fundamento, natural ou mesmo científico, pode-se decidir o termo final de uma vida humana? “Quanto pode valer uma vida humana, se nos lembrarmos de que […] morreram milhões? Estamos cheios de ódio e de preconceitos”, afirma desoladamente a autora. (ALEKSIEVITCH, p. 9)

Dividir-se a unicidade da vida humana em camadas, para assim sentenciar pela continuidade ou não daquela, é atrocidade humana das mais brutais. É acovardar-se pela matança de alguns, justificando o nascimento de tantos outros. A quem de nós cabe o sublime e transcendente poder de decretar, previamente, qual de seus futuros pares deve viver ou morrer? É justo se desfazer, assim, como num soprar de vento, de um novo ser humano, negando-lhe o bem que não queremos que nos seja negado, qual seja, a vida? É honesto que lhe seja negada a continuidade de permanência entre nós, mesmo sabendo que estar no útero já é fazer parte da raça humana?

Parafraseando Daniela Arbex, em seu Holocausto Brasileiro (ARBEX, p. 94), é crime uma vida humana ser sentenciada à morte apenas por não atender aos padrões sociais? Neste mesmo sentido, é crime sentenciar à morte uma criança em formação uterina somente por se desenvolver com uma malformação, passível ou não de tratamento? Daniela, em sua fotográfica obra, denomina como holocausto brasileiro o sentenciamento de milhares de seres humanos indefesos a tratamento psiquiátrico ocorrido em mais de 50 anos de história deste país. Como a autora denominaria então, se vislumbrasse o sentenciamento à morte e não ao tratamento médico, de outros milhares de seres humanos, e por tempo indefinido? Não cremos que há palavra criada pelo ser humano para definir tal cenário.

Dividir a inteireza da vida humana, de sua complexidade existencial, em frações de enfermidades, é fazer pouco caso de sua descomunal relevância. A mais recente segmentação da vida humana em gestação concretizou-se com a segregação entre anencéfalos ou não, entre os que merecem morrer ou não. É genuíno, íntegro e moralmente sério que se façam novas distinções da vida, p. ex., entre seres humanos microcéfalos ou não? Tal qual os judeus nos campos de concentração nazistas, onde a mera descida dos trens os fariam sobreviver ou morrer, mesmo que aptos a viver, não é digno sentenciar à morte outros milhões e milhões de humanos, sem os deixarem entrar no vagão da vida.

Que as autoridades deste país, em seus pedestais de razão e equilíbrio, não deixem a balança pender para o lado sombrio da morte. Cada vida merece respeito e proteção, pois a pergunta não deve ser quanto pode valer uma vida, mas quanto se perde ao se por fim a tantas outras vidas.

Referências:
[1] ALEKSIEVITCH, Svetlana. O Fim do Homem Soviético. Portugal: Porto Editora, 2016.
[2] ARBEX, Daniela. Holocausto Brasileiro. São Paulo: Geração Editorial, 2013.

Brasil, 22 de agosto de 2016.